sexta-feira, 23 de outubro de 2009

VIVÊNCIA EM BIODANÇA

Vivência é compreendida como “algo revelado no complexo psíquico dado na experiência interna de um modo de existir a realidade para um indivíduo” (Diltey, apud Toro). Toro a define

como a experiência vivida com grande intensidade por um indivíduo no momento presente, que envolve a cenestesia, as funções viscerais e emocionais. A vivência confere à experiência subjetiva a palpitante qualidade existencial de um viver o “aqui e agora”.

No início somos nós em nossa couraça, nosso jeito de ser. Mas no íntimo, algo vai se movendo, se (co)movendo, ampliando-se, expressando-se progressivamente na dança, em vivências que vão se expressando com maior intensidade e totalidade. As vivências vão paulatinamente fortificando a identidade pessoal ao tempo em que as couraças vão se diluindo ou se flexibilizando.

Segundo Góis, a vivência em Biodança é biocêntrica na medida em que e capaz de gerar vinculação, de nutrir e alimentar a vida.

O que diferencia a ação da Biodança de ações clínicas é o nosso foco de atenção orientar-se para a potencialidade natural e sua capacidade expressiva de vir ao mundo por meio da fertilidade cultural, sem nos determos prioritariamente no condicionamento, na reflexibilidade ou na fala.

Essa vivência não se confunde com a experiência e nem com a vivência ontológica da degradação, surge da intensificação sensível e amorosa do corpo, de uma relação íntima corpo e mundo, uma corporeidade amorosa pulsando a partir do mundo instintivo, pré-reflexivo, orgânico e relacional. (Góis)

De acordo com Maldonato, ainda estamos muito distante de compreender com precisão esse fenômeno fundamental: a vivência e a correlação entre vivência e consciência. Entretanto afirma que grande parte da base da consciência é pré-reflexiva, não conceitual, pré-noética, afetiva.

Vivenciar é deixar-se conduzir pelo fluxo da vida, brotando no pulsar sujeito-mundo. É ser o próprio fluxo; o movimento, a música, a dança, o encontro. É vida brotando de dentro para fora e de fora para dentro.

A metodologia de Biodança facilita a deflagração dessas vivências.

A vivência é, em Biodança, o ponto de partida da (re)aprendizagem, da orientação e regulação do ser no mundo.

O fenômeno da aprendizagem, segundo Toro envolve todo o organismo, compreendendo os três níveis: cortical, vivencial e visceral “que estão neurologicamente relacionados, e podem condicionar-se reciprocamente, embora possuam uma forte autonomia”.

A partir da vivência são atingidos dois outros níveis de aprendizagem: o cognitivo e o visceral, resgatando a integração e a unidade do ser. Biodança propõe, assim, uma inversão epistemológica. Nas terapias cognitivas:

o processo vai dos significados às emoções. A meu ver a compreensão dos significados não modifica as respostas imediatas frente à vida, não podendo influir senão no âmbito da decisão. A Biodanza, por isso, baseia-se no processo inverso: aquele que vai das vivências aos significados. (Toro)

Costumo facilitar a compreensão desse conceito nos grupos de iniciantes referindo-me à infância: a criança plena em suas brincadeiras, dançando ao vento, banhando na chuva, saltando, rolando no chão, ou entregando-se ao aconchego do colo de um adulto carinhoso.

Considerando que vivemos uma cultura predominantemente antivida, com valores que negam a singularidade do Ser, Biodança trabalha com progressividade e respeito aos limites do grupo e, nesse processo, o facilitador tem uma função orientadora e nutritiva. Ele não é apenas um profissional que compreende a teoria e a técnica de Biodança: deve ser sensível, cuidadoso, ser pai, mãe, sacerdote, xamã (Góis). Deve ser rico em imaginação e confiar no potencial de vida que habita cada ser humano. Cabe ao facilitador estimular esse potencial, apoiar e dar limites ao grupo.

Entretanto, o facilitador também é um ser em evolução, em constante aprendizagem. Não é um ser pronto, acabado, mas um eterno aprendiz de Biodança



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